A apresentação LEVEL5 VISION 2026 II: Dreams deveria apresentar os próximos lançamentos da Level-5, incluindo o remake de Professor Layton and the Curious Village. Em vez disso, o evento se tornou alvo de críticas nas redes sociais, com jogadores apontando o que consideraram indícios de uso de inteligência artificial generativa em materiais de vários jogos da desenvolvedora.
As suspeitas recaíram sobre cenários de Professor Layton and the Curious Village, artes de fundo de Yo-kai Watch 2: Haunted Domain, animações de Inazuma Eleven: Bold Revolution e também sobre DecaPolice. Fãs mencionaram até a representação animada do presidente da Level-5, Akihiro Hino, como um dos elementos que geraram desconfiança durante a transmissão.
Professor Layton no centro da polêmica
O remake de Professor Layton and the Curious Village concentrou boa parte das críticas. Fãs questionaram inconsistências nos cenários apresentados, indicando que poderiam ter sido gerados por IA. Yo-kai Watch 2 também teve artes de fundo questionadas, enquanto as animações de Inazuma Eleven: Bold Revolution foram criticadas pela rigidez nos movimentos dos personagens.
Apesar da repercussão, a Level-5 não confirmou que esses elementos específicos dos jogos, como cenários e animações, tenham sido produzidos com IA generativa. A empresa reconheceu apenas o uso da tecnologia nos materiais da própria apresentação, o que deixou uma lacuna entre o que foi suspeitado pelos fãs e o que foi efetivamente confirmado pela empresa.
Histórico de declarações sobre IA
A desconfiança dos fãs não surgiu isolada. Durante uma conversa com candidatos da Top Game Creators Academy, Akihiro Hino afirmou que entre 80% e 90% dos códigos dos jogos da Level-5 seriam escritos por IA e depois ajustados e finalizados por programadores humanos. Na mesma ocasião, o executivo defendeu que a tecnologia avançava sobre áreas como arte, música e design, argumentando que essa aplicação aumentava a eficiência do trabalho criativo dentro da empresa.
Já em 2023, a Level-5 havia revelado experimentos com ChatGPT para criação de designs de personagens e para a geração de artes de fundo ligadas a Inazuma Eleven: Victory Road. Foi justamente esse histórico de declarações públicas favoráveis ao uso amplo de IA que ajudou a alimentar as suspeitas dos fãs quando surgiram as inconsistências visuais na apresentação LEVEL5 VISION II: Dreams, reforçando a desconfiança em torno dos materiais mostrados.
Resposta oficial de Akihiro Hino
Diante da repercussão, Akihiro Hino publicou uma explicação pública sobre o episódio. Segundo o presidente da Level-5, os vídeos exibidos durante o evento passaram, sim, por processamento com IA, recurso adotado como parte de um experimento voltado a tornar a apresentação mais impactante para o público. Hino também pediu desculpas aos espectadores que se sentiram incomodados com a descoberta do uso da tecnologia nesses materiais.
Além de reconhecer a aplicação da IA, o presidente admitiu que ela acabou sendo empregada de forma mais ampla do que o planejado inicialmente para os vídeos do evento. Ele afirmou ainda que a reação negativa do público será tratada como aprendizado interno, servindo de base para ajustes na condução das próximas apresentações da empresa.
O que a Level-5 diz preservar como trabalho humano
Apesar de admitir o uso de IA na apresentação, Hino fez questão de delimitar os aspectos que, segundo ele, continuam sob responsabilidade exclusivamente humana na Level-5: roteiros, designs de personagens e conceitos básicos, elementos que o executivo descreve como responsáveis pelo charme e pela individualidade das produções da empresa. Conforme sua explicação, a intenção não é substituir essas etapas criativas, mas usar a tecnologia principalmente para ganhar eficiência em fases posteriores da produção, como a conversão mais precisa de artes originais em modelos poligonais.
A explicação de Hino, no entanto, não esclarece se os elementos específicos apontados pelos fãs nos trailers, como os cenários de Professor Layton, foram produzidos com auxílio de IA. O que fica estabelecido é a posição atual da empresa: seguir utilizando a tecnologia como ferramenta de produção, mantendo sob responsabilidade humana o que, na visão da Level-5, define a identidade criativa de seus jogos.
Olhar da Hédiz · Análise
Olhar da Hédiz
O caso da Level-5 mostra como a comunicação sobre uso de IA pode gerar desconfiança mesmo quando a tecnologia é aplicada apenas em etapas de produção. Para empresas de qualquer setor, a lição está na transparência: declarar onde a IA atua e onde o trabalho humano permanece pode evitar interpretações equivocadas do público.
O episódio também expõe um risco de reputação quando declarações anteriores sobre uso amplo de IA não são acompanhadas de explicações claras sobre limites e aplicações específicas. Empresas que comunicam decisões tecnológicas sem detalhamento suficiente podem enfrentar reações negativas mesmo sem confirmação de problemas reais.


